Sobre o filme

Lindeiras é um filme que trata do sertão, histórico e também mítico, que aos poucos perde espaço e se desfaz. O nome Lindeiras é a designação utilizada décadas atrás para as cidades situadas às margens das linhas de trem. É através desse percurso, por trilhos enferrujados e esquecidos, que faremos uma viagem ao interior do sertão baiano, de Alagoinhas à Juazeiro, para olharmos com cuidado as paisagens e pessoas que compõem esse universo.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Sobre a palavra "Lindeiras"

Há palavras em que o feminino impregna todas as sílabas. Tais palavras, podemos chamá-las de palavras de devaneio. Pertencem à linguagem da anima.
(...)
A anima, princípio do nosso repouso, é a natureza em nós que basta a si mesma, é o feminino tranquilo. A anima, princípio dos nossos devaneios profundos, é realmente, em nós, o ser da nossa água dormente.

Gaston Bachelard em "A poética do devaneio"

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Alagoinhas

A chegada à Estação de São Francisco causa um enorme impacto. Com uma extensão de mais de 200m, ela coloca-se soberana à beira de mais de seis linhas de trem que atravessam o grande prédio de estilo inglês. Essa construção é a segunda, das tries estações que existem em Alagoinhas. A primeira, em estilo colonial permanece incrustada no atual centro comercial da cidade. A de São Francisco, foi construída pela companhia inglesa encarregada da construção da malha ferroviária que cruzava o sertão baiano. A imponência do prédio deve-se ao desejo dos ingleses em deixar um marco da passagem deles por aqui na construção da linha. Fizeram então uma réplica de uma estação inglesa. Com direito a todo o material importado da Inglaterra.

Hoje, abandonada, é um cenário impactante.

Por sorte, um grupo de pessoas ligadas à cultura da cidade lutam para a restauração e transformação do espaço em um ambiente de produção e difusão artística. Uma forma de devolver à população um dos locais mais emblemáticos para a identidade do povo de Alagoinhas.

No filme Lindeiras a Estação de São Francisco em Alagoinhas é o nosso ponto de partida.






sábado, 4 de dezembro de 2010

Juazeiro

No filme, Juazeiro indica o ponto final (da Bahia) dessa linha de trem que pretendemos percorrer. A busca pela antiga estação, demolida há mais de 50 anos é um mergulho da lembrança e no esquecimento. Juazeiro é também a terra natal de João Gilberto, uma das referências de composição artística que norteiam essa caminhada.

 A partir de arranjos de composição bastante complexos, que envolvem desde a dissonância das notas, a divisão rítimica do violao, até a extrema liberdade de colocação da voz, João Gilberto transita entre diversas esferas da composição artísticas. Com o filme lindeiras, pretendemos um convite a uma experiência sensual que estabeleça um diálogo com campos de expressão que indicam temporalidades distintas. Como João Gilberto, nos importa comunicar através de sensações.

De pé, a antiga estação de Piranga. As fotos são de Vicente Sampaio.














terça-feira, 30 de novembro de 2010

Serrinha


Serrinha está na gênese da idéia do filme. De lá, onde os laços afetivos são ancestrais, surgiu a idéia para este percurso pelo desconhecido, pelas histórias de pessoas que compõem a paisagem da linha do trem.










sábado, 27 de novembro de 2010

Lamarão

A chegada em Lamarão foi surpreendente. Já tínhamos visto fotos da estação abandonada, mas em nada as fotos se pareciam com o que estávamos vendo ali de perto. É um cenário incrível. Uma grande extensão da linha de trem enferrujada contrastava com os dormentes assentados em pedras brancas. A linha vai até onde a perdemos de vista. Ali, me lembrei exatamente da poesia de Manoel de Barros, quando tentava fotografar o silêncio. Eu tentei, e como o poeta já disse, não é nada fácil. Como capturar a solidão dos mandacarus que resolveram crescer no telhado na antiga estação? Como traduzir em imagem o desejo deles de alcançar o céu? Dentro do filme, já sabíamos que Lamarão estaria de alguma forma, mas ainda não sabemos como. O que sinto, é como se ali fosse possível abrir um intervalo no espaço do filme para mostrar um outro tempo que prescinde do passar das horas. E aqui vou eu falando de tempo mais uma vez. Os mandacarus que nasceram no telhado da estação em Lamarão são um instante perdido no tempo.










sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Água fria

A passada por Água fria foi rápida. Aproveitamos que estávamos por perto para dar uma checada na estação, conhecer mesmo que de relance, a cidadezinha. No planejamento de Lindeiras, esta foi uma das cidades que ficou de fora. Quando os trens de passageiro funcionavam, Água fria era uma grande estação, e a cidade tinha uma grande área geográfica, Serrinha e Lamarão eram distritos de lá. Minha sensação é que Água fria ficou parada no tempo, pois continua uma pequena cidade enquanto Serrinha se desenvolveu a ponto de ser um centro regional.

A estação desativada é ocupada por casas de marimbondos. Voam desconcertados por todos os lados, o que me fez manter certa distância, por isso a constância dos planos gerais. Nas fotos em película, registros ousados feitos por Bruno que chegou mais perto dos insanos voadores.






E aqui, uma referência à criatividade do povo de água fria.


quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Santa Luz


Entre Queimadas e Serrinha, uma passada rápida por Santa Luz para encontrar um trem que vimos no meio da estrada. Em uma estação reformada de arquiterura moderna, a empresa que administra a concessão da linha montou uma base de monitoramento. Lá, tivemos mais informações sobre o trajeto percorrido pelo trem, e a viabilidade de pegarmos carona nessa cauda de cometa. Mesmo passando rapidamente pudemos perceber que não se trata de uma cidade tão pequena quanto Queimadas. No tempo que passamos na estação de Santa Luz, o trem estava parado aguardando autorização para prosseguir viagem até Salgadália. Partimos, com a esperança de vê-lo passar por Serrinha.